A (primeira) corrida espacial



Minha mãe, confirmando seu cuidado materno, guardou meus “trabalhos" escolares que produzi no jardim da infância, creio que hoje deve ter mudado de nome, acho que é “pré-escola” … Pois então, existem muitos desenhos e é muito interessante algumas coisas que encontrei ali; havia o costume de, após terminar de desenhar, a professora perguntava o que era aquilo e escrevia ao lado o que aqueles rabiscos eram para mim. Invariavelmente meus desenhos eram representações do Sputnik e foguetes: a corrida espacial estava nos seus primórdios. As únicas representações de seres vivos que eu desenhava eram de astronautas e marcianos, muitos desenhos estão titulados como “homem de Marte”. Isso é muito curioso pois era uma época em que não havia nenhum canal de TV aqui, não sei de onde eu sabia disso tudo, talvez de notícias do rádio, que eu ouvia muito, e o que os adultos que me cercavam, falavam. Depois, com a TV (compramos nossa primeira TV em 1960, uma SEMP 24 polegadas, quando foi inaugurada a “TV Paranaense Canal 12”) foi mais fácil acompanhar a “corrida”. Houveram os programas espaciais (americanos) “Vanguard" e “Gemini”, morriam muitos astronautas durante o lançamento. Até que em 1967 (na America foi em 1966) surgiu o seriado “Star-Trek”, conhecido aqui em Pindorama como “Jornada nas estrelas”. Convém lembrar que, até então, quase todos os seriados televisivos, eram westerns, um ou outro era “policial” ou outros poucos que hoje chamam de “sitcom”, “coisas" como “I love Lucy”, cuja protagonista, produzia o “Jornada nas estrelas”. Ficção científica era um gênero que, devido sua complexidade técnica, acontecia no cinema somente. O  seriado “Além da imaginação” (“Twilight Zone”) e o “Quinta dimensão” (“The outer limits”) eram mais de “mistério" que ficção científica. Desta forma “Jornada nas estrelas” foi um sucesso estrondoso. O salto dos foguetes do Flash Gordon para a “Enterprise NCC1701” foi monumental, viagens à Marte eram coisas do passado, os "motores de dobra” nos levavam às fronteiras da nossas galáxia, até “onde nenhum homem jamais esteve”; o patrulhamento do politicamente correto fez com que, anos mais tarde, na série Star Trek “Nova geração” a coisa mudou para “onde ninguém jamais esteve”. Esse seriado foi muito importante pois quebrou alguns paradigmas da época, especialmente sobre o racismo: entre os oficiais de comando, havia a Nichelle Nichols e um episódio que mostra com maestria a estupidez do racismo. A série teve 3 temporadas e continuou sendo veiculada até que, anos depois, acharam por bem produzir a tal da “Nova geração”. Muito bem, nove anos depois, numa galáxia distante … “Guerra nas estrelas”! Está bem claro como as pessoas “evoluiram”: entre a jornada e a guerra muita água passou sob a ponte, talvez o evento mais importante foi o Maio de 68 e, aqui em Pindorama, o Dezembro de 68. Mas não é de política que vou falar não, mesmo que aquela geração tenha esquecido as lições de 68 a abraçado a "guerra". “Star Wars” veio com toda a glória do cinema e, mesmo o franchising “Star Trek” produzindo filmes, o Lucas impôs o Luke e seu pai desnaturado. Mesmo sendo uma abordagem bem mais infantil que a “Jornada”, a “Guerra" saiu à frente devido à este  conflito familiar. Se a “jornada" tinha um foco mais universal da realização do sonhos da humanidade, a “guerra" pegou o público, no escurinho do cinema, com uma isca muito mais acessível: a família destroçada, sem mãe e com um pai que, abraçou o “lado negro da força” e quer conquistar o Universo na paulada. Ao mesmo tempo que queríamos ter a princesa Leia como irmã não queríamos ter o Darth Vader como pai. O resto é história, como costumam dizer. Mas essas coisas são geracionais. Quando assisti pela primeira vez a “Jornada nas estrelas”, eu tinha 11 anos e passei minha adolescência nos braços da Nyota Uhura e não nos braços da Princesa Leia Organa. “Stars Wars” me pegou com 21 anos completos, programador assembler pleno, cidadão que pagava impostos; não foi nada marcante para mim pois, era somente um filme muito bom de ficção científica. Revi o “Star Wars” a alguns anos e me pareceu datado, já a “Jornada" permanece irrepreensível, mesmo com as falhas e imperfeições de uma produção pobre pois, “é a voz que vem do coração”. Vou terminar meus dias tomando sopa plomeek. Vida longe e próspera!



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