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Mostrando postagens de fevereiro, 2023
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  Perdido em Abbey Road Comprei o “Abbey Road” em Dezembro de 1969, ainda está comigo. Trinta anos depois eu cruzei aquela rua. Não sei quando isso começou a acontecer, imagino que foi logo que descobrimos exatamente onde a “Travessia" aconteceu. Existe uma webcam ( https://www.earthcam.com/world/england/london/abbeyroad/?cam=abbeyroad_uk ) onde podemos ver (e ouvir) os fãs sendo fotografados, já fiz observações em vários horários e o pessoal chega cedo e sai tarde, todos os dias, já vi gente lá durante a noite e durante a chuva também; a última vez que fiz uma observação a câmera já havia sido “visitada" mais de 80 milhões de vezes, não sei quando esta webcam foi ativada. Estar onde eles estiveram é coisa de fã mas tirar uma foto em Abbey Road, onde eles “atravessaram" é algo místico, posto que não são somente fãs que tiram tal foto. Existe um “algo mais" ali, sei disso porque eu fiz esse cruzamento. Se observarmos a foto, tirando as referência do mito “Paul est...
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  Música erudita e música popular ... Como muitas outras coisas, adquirimos um certo conhecimento sobre música se a estudamos ou simplesmente, a ouvimos. Esse conhecimento é mais ou menos aprofundado dependendo da função que escolhemos para a fruição e da nossa curiosidade. Esta característica de uma música funcional é algo antigo, a música nasceu funcional, função religiosa, a música sacra. Isso acompanhou a música formal uma vez que o profano não tinha importância alguma para ser preservado, mas é obvio que as manifestações folclóricas e populares estavam lá, expressas em forma de música. E a música profana foi levada à Côrte, como uma forma de entretenimento mas, para ter uma música exclusiva, contratou compositores para produzir música de concerto ou para bailes. Nessa época a música sacra já possuía uma forma de ser preservada através da notação musical, música escrita. Então a notação musical passou a ser utilizada para a música produzida para a Côrte. Isso obrigou aos inst...
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  O fim do Stones, 3/7/69 Há quem acredite que os Stones seja o conjunto mais antigo em atividade (não muita, desde a morte do baterista), mas quem eles eram realmente? O “cerne" do grupo sempre foi, inegavelmente, a dupla Jagger/Richard. Mas somente os dois representam a “assinatura sonora” dos Stones? Originalmente, além deles, tínhamos o Bill Wyman, o Ian Stewart (como session man somente), o Charlie Watts e o Brian Jones, como vocês podem ver na foto. Destes, o Brian Jones foi quem fez diferença para que os Stones não fossem outro grupo qualquer, existiam muitos outros bons grupos de rythm’n’blues em Londres naqueles dias. Brian Jones trazia sempre alguns detalhes que fazia os Stones se destacarem, como a marimba que ele gravou em “Under my thumb”, por exemplo. Desta forma os Stones construíram, durante os anos 60 uma carreira sólida com uma “legião de fãs” muito leal. Foi essa “lealdade" e o fim dos Beatles que alavancaram a continuidade deles. Quando ficamos sem Beatle...
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  Música democrática? Talvez essa discussão tenha nascido da ideia que, se tratando de uma manifestação cultural, ela deve ser fruída por todos. Essa ideia é recorrente desde a revolução industrial e trazida à pauta por pensadores de esquerda. Ao longo do tempo naturalmente surgiram músicos e compositores de esquerda e não foi por isso que a música erudita se popularizou, se é que houve essa possibilidade. Quando o compositor e seus intérpretes deixam de depender totalmente do mecenato, na segunda metade do século 19 (talvez o último tenha sido Wagner), passam a ter seus proventos vindos de aulas de música e concertos. Na Viena do século 19 a valsa de Strauss era apreciadíssima ... nos salões frequentados pela alta burguesia! A modernidade possibilitou que a pequena burguesia usufruísse de alguns prazeres dos nobres e da alta sociedade onde, conheceram a música erudita, seja nos salões de baile, seja nas salas de concerto. Entretanto, a tradição não considera a existência de um "...
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  A música erudita ainda faz sentido? (Parte 2/2) Se analisarmos o contexto histórico do desenvolvimento da música, é óbvia a evolução em termos de função e depois, forma, pelo menos até o começo do século 20; a finalidade da música mudou o seu formato. A música nasceu, como uma manifestação religiosa e não como entretenimento e, como tal deveria ser reverente e sem muita complicação pois servia para "elevar" a alma e o espírito humano para um estado de contemplação mística. Tarefa tal que não permita acordes dissonantes que distraíssem o intérprete e o público. Porém isso não impedia que houvesse música profana que sempre teve uma função de entretenimento, independente da sua "qualidade".  Na medida em que a música profana se estabeleceu na corte, os nobres passaram a contratar, primeiramente, músicos que fossem exclusividade deles e, posteriormente, compositores que passaram a integrar a corte - era mais uma maneira de ostentar poder e riqueza. Foi nesse ponto ...
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  Curitiba, imperialismo ou doutrina Monroe? Pois então. Pertencendo ao remanescente nativo (60% da população de Curitiba são “estrangeiros”) tenho um sentimento ambíguo em relação ao desenvolvimento urbano-social da nossa cidade, quando se nasce-cresce-morre numa mesma cidade, se estabelece um caráter mais, digamos assim, conservador, esse comportamento, atualmente, é anátema mas, como diz o nosso prefeito, “cada um cai do bonde como pode”. Gosto de assistir no Youtube, os testemunhos daqueles que vêm morar aqui. Os testemunhos são muito diversos, dependendo a origem dos migrantes. Os cariocas são aqueles que mais se espantam e gostam do que a cidade oferece. Num desses videos um rapaz estava grato por estar aqui pois quando chegava do trabalho, ao comprar pão na esquina, não era assaltado no caminho e o padeiro não o enganava no troco. Que horror! Para uma situação dessas, qualquer coisa diferente  é o paraíso. Vivemos numa época onde “egoístas são aqueles que não pensam ...
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  A música erudita ainda faz sentido? (Parte 1/2) Discute-se, no meio acadêmico, a "morte" da música erudita, dita "clássica", se na modernidade ela ainda é relevante. Esta discussão, direcionada à tradição musical ocidental, me parece vazia. Imagino que existe contra, os apreciadores de música erudita, um certo sentimento misto de desprezo e inveja, como se gostar de música erudita fosse uma forma de se colocar numa posição superior. Mas isso pode ser somente a minha imaginação. É consenso que a música, como qualquer outra manifestação artística, é uma forma de expressão, às vezes mais, às vezes menos sofisticada, mais ou menos compreendida, de um "momento sócio-econômico-cultural”, o tal do "zeitgeist". Adorno rejeitava o termo “apreciação musical” pois julgava ser algo superficial, preferia “compreensão”, o que era de se esperar de um discípulo de Alban Berg. Se tomarmos essa abordagem adorniana, assumimos que existem dois estágios na fruição da ...
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  Yggdrasil: a copia conforme (o filme) e a prensagem fiel (de discos) Desde que me lembro, existem audiófilos que ouvem o seu equipamento e não música. Pode ser qualquer tipo de música ou de som, desde que mostrem a sua capacidade de reprodução. Nos primórdios da alta-fidelidade era possível encontrar discos com “sons" para demonstrar o sistema de audio, coisas como barulho de trem passando, jatos decolando, explosões. E não eram poucos esses discos. Com o advento dos sistemas multicanais, a coisa ficou mais bizarra, existem pessoas que acham que todos os filmes são documentários. Lembro de estar numa loja e um cliente interessado num “home teacher” (sic), perguntou se aquelas caixas acústicas eram capazes de reproduzir perfeitamente o “rugido" de um dinossauro. Não lembro o que o vendedor respondeu. Vocês sabem como é o tipo, é o mesmo que quer mostrar como o carro é potente e fica acelerando com o veículo parado. E estão soltos por aí. Quando Vangelis morreu, numa convers...
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  O violinista no telhado: sua vida foi salva pelo rock’n’roll A vida é algo a ser saciada. Quando jovens temos mais fome e sede de descobrir como é viver e ao longo dos anos, após ter um vislumbre do que pode vir, tentamos administrar a coisa toda, da melhor maneira possível. Essa sede de viver nem sempre é dada a saciar devido as imposições das normas sociais que variam ao longo dos tempo, os “mores" como diziam os gregos. Sabe-se que a criança deve ser ensinada e corrigida e, esse processo pode frustrar as expectativas do indivíduo quanto aquilo que ele esperava conhecer e experimentar; desta forma as reações conhecidas são a revolta, se ele reagir e, o tédio, se se conformar com as restrições. As mudanças dos “usos e costumes”, morais e éticos, são, eventualmente mudados, devido ao processo de viver e conviver, simples assim. Essa fome de viver é conduzida pelo curiosidade e pela necessidade da satisfação dos desejos do indivíduo, desejos esses que, na medida em que são satis...
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  A música erudita contemporânea Alguns amigos, procurando apreciar música erudita reclamaram que não conseguiram ouvir "Pássaro de Fogo" do Stravinsky por ser uma composição "muito longa". Essa dificuldade é devida à complexidade da peça e, convenhamos, a estrutura do ballet pois, mesmo sendo algo muito inovador face à música que se fazia na época, nos parece atualmente algo muito simples. A dificuldade de fruirmos a música erudita pós período romântico é compreensível pois muito mais que um "desenvolvimento", foi uma ruptura. Na segunda metade do século 19, a revolução industrial trouxe para todos um mundo completamente diferente e desafiador, os compositores passaram a questionar o sistema musical estabelecido. Não existiu um 'movimento", as coisas foram acontecendo aos poucos. As últimas composições de Liszt nos trazem uma certa angústia que são claramente percebidos com soluções inusitadas. Mas o determinante foi o cromatismo wagneriano. Iss...
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  King Crimson Nunca achei que um dia eu estaria escrevendo este texto. Isso é para aqueles que eram muito jovens quando os gigantes andavam por sobre a Terra, para aqueles que nasceram a partir dos anos 1970, as gerações perdidas, as gerações que, por "se acharem" acabaram se perdendo. Perdoem a arrogância, mas como disse o Nelson Rodrigues: "o problema dos jovens é que eles não são velhos". Feliz ou infelizmente nada de importante aconteceu depois de 1977, quando aqueles que tinham um sonho foram substituídos pelos que olharam no espelho e gostaram do que viram. E, em se tratando de música, agora o rock propriamente dito, poucos ou nenhum desses jovens conseguem, mesmo quando se esforçam, ter uma vaga ideia do que é o King Crimson. Para começar eles acham que é uma banda, quando todo mundo sabe que é um conjunto de rock, banda é do Corpo de Bombeiros ou da Polícia Militar. Quem usa o termo "banda" é mais um que foi vencido pelo "imperialismo americ...
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  A (primeira) corrida espacial Minha mãe, confirmando seu cuidado materno, guardou meus “trabalhos" escolares que produzi no jardim da infância, creio que hoje deve ter mudado de nome, acho que é “pré-escola” … Pois então, existem muitos desenhos e é muito interessante algumas coisas que encontrei ali; havia o costume de, após terminar de desenhar, a professora perguntava o que era aquilo e escrevia ao lado o que aqueles rabiscos eram para mim. Invariavelmente meus desenhos eram representações do Sputnik e foguetes: a corrida espacial estava nos seus primórdios. As únicas representações de seres vivos que eu desenhava eram de astronautas e marcianos, muitos desenhos estão titulados como “homem de Marte”. Isso é muito curioso pois era uma época em que não havia nenhum canal de TV aqui, não sei de onde eu sabia disso tudo, talvez de notícias do rádio, que eu ouvia muito, e o que os adultos que me cercavam, falavam. Depois, com a TV (compramos nossa primeira TV em 1960, uma SEMP 2...
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  "Aqui o tempo se torna espaço" Falar sobre Wagner é falar sobre um ponto de inflexão da música erudita ocidental. O título do post, como vocês notaram, é da ópera “Parsifal”, o mito dos mitos: a busca do Graal. " Zum Raum wird hier die Zeit”: aqui o tempo se torna espaço. Onde? No palco, onde o espaço einsteniano separa os músicos da plateia, a música dos ouvintes. Só os músicos encontraram o Graal. Tenho muita certeza que Wagner sabia que essa seria sua última ópera, ele tinha encontrado o Graal da música com o “acorde de Tristão”, sua “obra aberta”. Nada seria como antes pois se viu (e ouvi) que tudo era possível. O mundo estava sofrendo uma convulsão no final do século 19 devido à revolução industrial e, as artes também, uma vez que são um reflexo do Zeitgeist. As exigências da produção industrial se alastrou nos corações e mentes do todos e a vida passou a ser mais áspera. E a música procurou o “seu lugar no universo”: a angústia provocada pela sanha capitalista fo...
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  Admirável mundo novo Muita gente não acredita que eu não tenho telefone celular. Num primeiro momento acham que eu não quero dar meu número e, quando percebem que não estou a mentir, me olham como se eu tivesse lepra. “Mas como é que você vive sem celular?”, me perguntam e logo emendam um “eu não sobreviveria sem ele”. “Mas porque não usa?” Com um orgulho maldoso, provoco: “Porque eu posso”. O complemento “e você não” fica implícito, omissão do PC (politicamente correto) e do medo de perder meus dentes. Para muitos é mais um eletrodoméstico que traz praticidade e conforto no que concordo, para outros existe uma certa idolatria envolvida: se o Google e o Chatgpt (que é a modinha) são os oráculos intangíveis, um celular é bem concreto e, a coisa passa a ser um ídolo ao qual é dada a oferenda do tempo e, tempo é vida. Não estou dizendo que TODOS são escravos do dispositivo, mas muitos “morreriam sem ele”, em sua próprias palavras. Quando pergunto, àqueles que eram adultos no períod...
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"Sem música, a vida não faria sentido"  Protofonia Antes deste, cometi, por uns dois anos, outro weblog no qual eu comentava discos. Tive 8 (oito) seguidores.  Não sei se isso é um record (“no pun intended” como eles dizem) mas me mostrou como  marketing é algo difícil, é impossível agradar todo mundo, mesmo porque todo mundo é muita gente. Quem leu, leu, muito provavelmente eu repetirei, em outras palavras alguma coisa que aconteceu lá. Opinar sobre discos, música, compositores e ouvintes é algo que está mais para a prática que para o conhecimento, vou falar por experiência. A música, como diria o Sr. Spock, é o que nos levou de onde estávamos para onde estamos, cada um segundo a sua história. O tempo é implacável e "a aventura humana só está começando”, vamos lá. O rock não errou Quando nasci o Buddy Holy estava gravando seus primeiros discos. As pessoas acham que tudo começou com o Elvis ou com o Chuck Berry mas na realidade foi com o Buddy Holy. Não vou explicar o ob...
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  Em 1959 eu ainda não sabia ler mas, foi o ano em meu pai comprou este disco que contêm a música "The diary". Minhas lembranças mais antigas são de 1959, tinha 3 anos de idade. Ouvi muito esse disco e especialmente "The diary", eu tinha autorização de ouvir os discos que quisesse, não lembro quando aprendi a operar o toca-discos. Anos mais tarde, quando aprendi inglês compreendi o que dizia a letra mas, tudo era rock'n'roll. Ouvia-se rádio, muito rádio, somente rádio. Compramos nossa primeira TV em 1960.  À noite, na casa dos meus avós, ouvíamos, no rádio valvulado, programas da Rádio Nacional do Rio que mais tarde se tornariam programas de TV: "O edifício Balança mas não Cai", "O cassino do Chacrinha" e a "radionovela" "Gerônimo, o herói do sertão". O cinema reinava absoluto e lembro de assistir filmes no colo da minha mãe, no Cine Luz, ali na praça Zacarias, na Curitiba de verdade, a "Cidade Maravilhosa" q...