A música erudita ainda faz sentido? (Parte 1/2)




Discute-se, no meio acadêmico, a "morte" da música erudita, dita "clássica", se na modernidade ela ainda é relevante. Esta discussão, direcionada à tradição musical ocidental, me parece vazia. Imagino que existe contra, os apreciadores de música erudita, um certo sentimento misto de desprezo e inveja, como se gostar de música erudita fosse uma forma de se colocar numa posição superior. Mas isso pode ser somente a minha imaginação.

É consenso que a música, como qualquer outra manifestação artística, é uma forma de expressão, às vezes mais, às vezes menos sofisticada, mais ou menos compreendida, de um "momento sócio-econômico-cultural”, o tal do "zeitgeist". Adorno rejeitava o termo “apreciação musical” pois julgava ser algo superficial, preferia “compreensão”, o que era de se esperar de um discípulo de Alban Berg. Se tomarmos essa abordagem adorniana, assumimos que existem dois estágios na fruição da música, a saber: a exposição e a compreensão; o primeiro se trata da interação dos sentidos com uma abordagem proustiana, o segundo, como um fenômeno epistemológico: é inegável que o processo de fruição leva ao aprendizado. Mas se o interesse em música erudita diminuiu, e como isso vem acontecendo desde o final do século 19, podemos desconfiar que a música, para o público em geral, passou a ser incompreendida, tanto na sua função e, especialmente, na sua forma. Existe um consenso, ou uma fantasia, que a música "de qualidade", é universal, universalidade esta sancionada pela história. Isso não quer dizer "música para todos", mas sim, "música de todos" e se assim fosse, não haveria problemas cognitivos em relação à música. Porém sabemos que essa "universalidade" é um privilégio atingido por poucos compositores, nem todos gostam de Webern, nem todos gostam de Mozart (já escandalizei muita gente quando disse não gostar de Mozart). Essa "universalidade" diz respeito mais à forma que à função. Após 3oo anos do "cravo bem temperado" é de se esperar que esse "formato sonoro" tenha se  introjetado nos genes da civilização ocidental, leia-se aqui, europeia; existe, pois, um conceito atávico da forma e, em menor grau, a função da música (lembrem do prefácio do "Retrato de Dorian Gray"). As mudanças do "formato" que ocorreram, desde o final do século 19 passará, de certa forma, a interferir na função da música. Se o público gostava de um certo tipo de música porque a julgava "bonita", a mudança radical da forma, deixou a música "feia" e, música "feia" ou é música mal composta ou não é música, é ruído. Esse raciocínio ainda é corrente entre o público, digamos assim, menos informado. Na medida em que o público foi se afastando, a música foi perdendo, ou sendo esquecida como uma forma de entretenimento, seja para ouvir ou para se dançar. Desta forma, no final dos anos 1920, alguns compositores, que anos antes criavam peças que causaram fúria e desencanto no público, passaram a compor da maneira "tradicional", usando a dita "prática comum" tonal, algumas vezes para agradar ao público, outras vezes para tentar novos caminhos com uma linguagem ortodoxa, mesmo que isso seja paradoxal. Devemos considerar também que, com o advento do gramofone que, no início de século 20 proporcionou uma maior difusão da música (qualquer tipo de música) e depois, nos anos 1920, o rádio ajudou a difundir ainda mais a música, com o jazz que caiu no gosto popular de uma maneira assombrosa, é claro influenciou outras "manifestações musicais" populares; desta forma a música popular foi evoluindo em termos "universais", da mesma forma que a música erudita, devido especialmente à popularização do rádio. Menos de duas gerações de ouvintes de rádio foram suficientes para reduzir significativamente a procura de música nas salas de concerto pois todos podiam "ter uma orquestra no conforto da sua sala de estar". Para aqueles que não herdaram a tradição e o costume de ouvir música erudita, mesmo no rádio, esse tipo de música passou a não existir, a "modernidade" trouxe outras formas de entretenimento, em especial o cinema. Mesmo tendo os ouvidos e cérebros "moldados" para ouvir músicas, digamos assim, menos complexas, estamos todos impregnados pelo sistema temperado, pela "prática comum", a harmonia tradicional, tanto para o público que continua ouvindo música erudita quanto para os que fruem a música popular. Não podemos deixar de considerar o "gosto pessoal" que, com sabemos, vem impregnado de uma herança cultural. Desta forma, resta a curiosidade humana de conhecer algo que está por aí. Desde o iluminismo, está fora a questão do "não ouvi e não gostei". Experimentem.



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