King Crimson



Nunca achei que um dia eu estaria escrevendo este texto. Isso é para aqueles que eram muito jovens quando os gigantes andavam por sobre a Terra, para aqueles que nasceram a partir dos anos 1970, as gerações perdidas, as gerações que, por "se acharem" acabaram se perdendo. Perdoem a arrogância, mas como disse o Nelson Rodrigues: "o problema dos jovens é que eles não são velhos". Feliz ou infelizmente nada de importante aconteceu depois de 1977, quando aqueles que tinham um sonho foram substituídos pelos que olharam no espelho e gostaram do que viram. E, em se tratando de música, agora o rock propriamente dito, poucos ou nenhum desses jovens conseguem, mesmo quando se esforçam, ter uma vaga ideia do que é o King Crimson. Para começar eles acham que é uma banda, quando todo mundo sabe que é um conjunto de rock, banda é do Corpo de Bombeiros ou da Polícia Militar. Quem usa o termo "banda" é mais um que foi vencido pelo "imperialismo americano" como diriam os "companheiros" ...

Pois então. Quando os Beatles (sempre os Beatles) gravaram o "Sgt. Pepper's", o mundo passou a se dividir em antes e depois desse disco. Esse disco nos levou de ende estávamos para onde estamos. Ao ouvir no radio, "A day in the life", o guitarrista recebeu a mensagem de que tudo é possível ao se fazerem música e assim nasceu o "King Crimson", de uma revelação. Não de uma vontade de fazer música, não de uma vontade de ganhar dinheiro com música, ou qualquer outro motivo, mas devido à essa revelação. Sempre houve um comprometimento com o "fenômeno" da música, o que fazer quando o silêncio entra no palco. Existe um momento em que os músicos se aquietam e esperam o maestro entrar no palco, essa espera é atemporal pois divide, mais uma vez, o espaço de onde estávamos e onde estamos agora, desde o término daquele ou qualquer outro concerto que participamos, seja como músicos, seja como plateia. O momento da criação musical, no palco ou quando você assobia algo numa praia deserta transcende o tempo e se integra ao espaço, Wagner já disse isso no "Parsifal" ("Zum raum wird hier die zeit"), como todos vocês bem o sabem. A música do KC é algo contínuo como o viver e se mostra cada dia diferente do anterior como aquele que vive e, com o passar do tempo, vai naturalmente mudando. Avaliar suas músicas através de um ou dois discos é como aquela história dos cegos que descreviam um elefante cada um segundo a sua percepção, não percebiam o "todo" elefantino. Não se "ouve "King Crimson", se vive a cada dia pois a música nos transforma. Não é um desvario de fã, mas uma busca do "Zen de ouvir música", mais uma vez lembrando Wagner. Aos autoindulgentes que buscam na música uma justificativa por serem o que são, não vão encontrar nada com o KC, entram mudos e saem calados, os que buscam simples entertainment são até punidos pois a música do KC não existe para "agradar" ou "entreter", isso já foi discutido academicamente nas décadas anteriores. Este ano o KC completa 54 anos de várias "reencarnações" como diz o guitarrista. Não importa se haverá outra, o guitarrista está velhinho, cada vez mais parecido com o Mr. Magoo, talvez ele precise de mais um KC, talvez nós precisemos também. Aqueles que não entenderam o que escrevi não precisam ouvir o KC se nunca ouviram, os que entenderam, isso mostra que já ouviram o suficiente. De qualquer maneira, esqueçam tudo que acabei de escrever.     




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