Perdido em Abbey Road
Comprei o “Abbey Road” em Dezembro de 1969, ainda está comigo. Trinta anos depois eu cruzei aquela rua. Não sei quando isso começou a acontecer, imagino que foi logo que descobrimos exatamente onde a “Travessia" aconteceu. Existe uma webcam ( https://www.earthcam.com/world/england/london/abbeyroad/?cam=abbeyroad_uk ) onde podemos ver (e ouvir) os fãs sendo fotografados, já fiz observações em vários horários e o pessoal chega cedo e sai tarde, todos os dias, já vi gente lá durante a noite e durante a chuva também; a última vez que fiz uma observação a câmera já havia sido “visitada" mais de 80 milhões de vezes, não sei quando esta webcam foi ativada. Estar onde eles estiveram é coisa de fã mas tirar uma foto em Abbey Road, onde eles “atravessaram" é algo místico, posto que não são somente fãs que tiram tal foto. Existe um “algo mais" ali, sei disso porque eu fiz esse cruzamento. Se observarmos a foto, tirando as referência do mito “Paul está morto”, o John está liderando a fila não porque ele era “o líder”, isso não existia entre eles, mas porque foi ele quem primeiro se retirou do grupo. De certa forma fazer uma foto ali foi a realização de um sonho, afinal eu também cruzei aquela rua mas, de onde saí e onde cheguei? Os cínicos e os invejosos dirão que cheguei do outro lado da rua; existe uma legião de rockeiros que não eram nem nascidos em 1969 que se sentem um tanto diminuídos, se é que posso usar essa palavra, por pertencerem a uma geração que não contribuiu para o “desenvolvimento" do rock (apesar que este seja "um cadáver insepulto”). Assim como Bach é o pai da música, os Beatles são os “pais" do rock. Neste momento os mesmos cínicos dirão que os pais do rock são “aqueles" americanos, ou afro-americanos que, nos anos 50 criaram o rock’n’roll. Exatamente, criaram o rock’n’roll e não o que entendemos por rock, que é uma “evolução" do primeiro, desenvolvida em Inglaterra, mais especificamente pelo Beatles, na concepção e gravação do álbum “Revolver”, fazendo deste álbum, um dos mais importantes alguns da década de 60, ao lado do “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Muito bem, depois dessa digressão completei a “Travessia" e como todo sonho realizado, ele pode simplesmente ser esquecido (esta é a razão de fotografarmos) ou se transformar num pesadelo. Pesadelo este que se concretizou com o fim brutal do John. Ao chegar do outro lado, vi a figura fugaz do Cheshire cat disposto a me ensinar que caminho eu deveria tomar. Cultura inglesa.
P.S.: “Travessia" é a última frase/palavra do “Grande sertão: veredas” do Rosa.

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