A música erudita contemporânea
Alguns amigos, procurando apreciar música erudita reclamaram que não conseguiram ouvir "Pássaro de Fogo" do Stravinsky por ser uma composição "muito longa". Essa dificuldade é devida à complexidade da peça e, convenhamos, a estrutura do ballet pois, mesmo sendo algo muito inovador face à música que se fazia na época, nos parece atualmente algo muito simples. A dificuldade de fruirmos a música erudita pós período romântico é compreensível pois muito mais que um "desenvolvimento", foi uma ruptura.
Na segunda metade do século 19, a revolução industrial trouxe para todos um mundo completamente diferente e desafiador, os compositores passaram a questionar o sistema musical estabelecido. Não existiu um 'movimento", as coisas foram acontecendo aos poucos. As últimas composições de Liszt nos trazem uma certa angústia que são claramente percebidos com soluções inusitadas. Mas o determinante foi o cromatismo wagneriano. Isso é demonstrado mais claramente na ópera "Tristão e Isolda" - as modulações consagradas para transitar de uma escala para outra, foi substituída por sequências cromáticas. Isso gerou um certo desconforto entre os compositores, mas foi aceito pois Wagner não se deixava ser questionado. Então vem Mahler propondo poli harmonia, polirritmia. Stravinsky com sua música avassaladora. Scriabin propondo um espetáculo multimidia com seu teclado de cores e, para revolver tudo, Schoenberg propõe o atonalismo que seus discípulos normatizam através do serialismo. Tudo isso nos primeiros 20 anos do século 20. Foi o suficiente para questionar o que é música. Há que se entender que todas as artes sofreram o mesmo questionamento, se as regras antigas ainda valeriam e o que era possível fazer e como. Talvez o único denominador comum foi estruturação coerente, a música era contida nela mesma, sem compromisso algum com o ouvinte. A música conceitual chegou ao ponto de não poder ser executada, existem as partituras, mas elas são inexequíveis (na década de 1950 John Cage nos apresenta uma composição que é uma pausa). Obviamente isso afastou muito a música do público, mas não totalmente tanto que estamos aqui discutindo isso.
Muitas composições foram escritas para que se pensasse nos conceitos formais da música, não eram somente música: é preciso que seja agradável? É preciso ter tonalidade? É preciso ter início e/ou fim? Ela tem que ser sempre ao vivo? Tudo isso fez com que os compositores tivessem mais espaço para a criatividade e fazerem música mais livremente. A nós, o público, nos resta fruir aquilo que nos agrada. Mas porque tão poucas músicas contemporâneas nos agradam? Simplesmente porque nascemos e crescemos com a tradição do período romântico do século 19 onde reinava a harmonia tradicional. Não temos problema com ritmos "desestruturados" ou com formas diferentes, mas quando chegamos à harmonia, não conseguimos esquecer, ou nos livrar dela. Isso também está ligado à funcionalidade ou objetivo que, inconscientemente, exigimos: música deve ser "agradável" aos nossos ouvidos. Antes de mais nada, é importante frisar que, normalmente, aquelas músicas que julgamos ser "harmônicas", estão pontilhadas de acordes "errados". Se assim não fosse, a música seria sem surpresas, como se não estivesse "temperada". Para se alimentar, não se costuma usar somente tempero, mas é possível se usar muito tempero. Com música também é assim. E como os temperos de comida, as técnicas utilizadas para se fazer uma música "não tradicional" devem ser muito bem estruturadas para que a composição tenha uma coerência intrínseca. Mas o que impede que se faça uma composição só com "temperos"? Nada. É claro que nem sempre o resultado é agradável aos ouvidos ou que possa ser ouvido sem esforço algum. Às vezes é como ouvir uma língua que não conhecemos, sabemos que algo está sendo falado, mas não sabemos o que é. Mas procurem ouvir, se expor. É algo desafiador.
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