A música erudita ainda faz sentido? (Parte 2/2)
Se analisarmos o contexto histórico do desenvolvimento da música, é óbvia a evolução em termos de função e depois, forma, pelo menos até o começo do século 20; a finalidade da música mudou o seu formato. A música nasceu, como uma manifestação religiosa e não como entretenimento e, como tal deveria ser reverente e sem muita complicação pois servia para "elevar" a alma e o espírito humano para um estado de contemplação mística. Tarefa tal que não permita acordes dissonantes que distraíssem o intérprete e o público. Porém isso não impedia que houvesse música profana que sempre teve uma função de entretenimento, independente da sua "qualidade".
Na medida em que a música profana se estabeleceu na corte, os nobres passaram a contratar, primeiramente, músicos que fossem exclusividade deles e, posteriormente, compositores que passaram a integrar a corte - era mais uma maneira de ostentar poder e riqueza. Foi nesse ponto que a música passou a ser "classista", no sentido marxista. Foi com o advento das salas de concerto que esse elitismo foi, de certa forma, rompido, ainda que era a alta burguesia quem frequentava salas de concertos, o "povo" assistia concertos nas praças. Na medida em que a orquestra foi crescendo em tamanho, houve a necessidade de se construir grandes teatros e a nobreza passou a frequentar esses teatros. Esse cenário permaneceu até 1910 quando a forma musical foi "transgredida", digamos assim. Mas precisamos voltar um pouco no tempo, no final da vida de Liszt quando o compositor passou a utilizar acordes considerados, até então dissonantes. Liszt foi, como dizem, o primeiro "popstar" no mesmo sentido que vemos hoje os Rolling Stones ou os Beatles. Ele atraía as mulheres aos seus concertos mais devido à sua beleza e vasta cabeleira do que à sua música. Liszt tinha muito claro essa consciência de marketing tanto que mudou a posição tradicional do piano no palco, colocando-o paralelo ao público, de forma que pusesse ser visto o perfil do seu rosto. Quando ele começou a ser mais ousado em suas composições, o público reagiu ferozmente. Paralelamente à obra de Liszt, Wagner começa a compor de uma maneira cada vez mais "densa", com harmonias inusitadas. Essas novas técnicas e essa nova harmonia foi, aos poucos, dificultando a fruição pelo público em geral e, mesmo pelos músicos pois todos estavam acostumados a uma forma consagrada por séculos, a composição tonal seguida de uma harmonia canônica tonal, a chamada "prática comum". Muito bem, morreu Wagner mas não a tonalidade, que teve em Mahler o "último romântico", o compositor que levou a sinfonia às últimas consequências, assim como Wagner tinha feito com a ópera. Mahler e Richard Strauss, com sua ópera sacrílega, "Salomé", tiraram o "excesso" Wagneriano para deixar a música mais aparente e mais "fácil"; ao ouvir "Tristão e Isolda" ou o "Parsifal", o fluir da música parece um rio de lava de tão denso. A abordagem desses dois compositores foi, no mínimo ousada, o experimento é sempre saudável, mas, como inovar depois de Wagner? Se utilizando do proibido pela "prática comum", Schoenberg nos presenteia com o atonalismo. Podemos, com muita certeza, dizer que foi em Schoenberg que a "prática comum" deixou de ser o cânon absoluto e irretocável, estabelecido formalmente pelo "Cravo bem temperado" de Bach. Se o público urrava ao ouvir "Salomé" e aprovava a liberdade de Strauss e Mahler, com Schoenberg a reação foi de horror e nojo, a crítica e o público se sentiram enganados, afinal "aquilo" não poderia ser música. Isso ainda é matéria de discussão, mesmo entre músicos “acadêmicos”.
Podemos concluir que, dada a toda estas marchas e contramarchas, a música erudita continua tendo o seu lugar inegável entre as artes, mas tudo isso foi somente o começo! Voltarei a discutir mais sobre música do século vinte …

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