Música erudita e música popular ...




Como muitas outras coisas, adquirimos um certo conhecimento sobre música se a estudamos ou simplesmente, a ouvimos. Esse conhecimento é mais ou menos aprofundado dependendo da função que escolhemos para a fruição e da nossa curiosidade. Esta característica de uma música funcional é algo antigo, a música nasceu funcional, função religiosa, a música sacra. Isso acompanhou a música formal uma vez que o profano não tinha importância alguma para ser preservado, mas é obvio que as manifestações folclóricas e populares estavam lá, expressas em forma de música. E a música profana foi levada à Côrte, como uma forma de entretenimento mas, para ter uma música exclusiva, contratou compositores para produzir música de concerto ou para bailes. Nessa época a música sacra já possuía uma forma de ser preservada através da notação musical, música escrita. Então a notação musical passou a ser utilizada para a música produzida para a Côrte. Isso obrigou aos instrumentistas se "alfabetizarem" nessa notação. Este foi o primeiro passo em "eruditizar" a música profana, a padronização via notação musical. A música profana da época era, principalmente, música folclórica ou música dos espetáculos de saltimbancos, essa música, especialmente as usadas para dançar, tinham um formato definido. Isso forjou mais algumas características formais de composição, o formato da sonata, o formato da sinfonia, por exemplo. Isso não quer dizer que toda música da Côrte fosse escrita, com certeza havia música "popular" na Côrte, mas o que chegou até nós, foram as obras escritas. Este é o grande trunfo da música erudita, ela é primordialmente escrita antes de ser interpretada. A música popular é "engendrada" de alguma forma e é interpretada, nas primeiras vezes, pelo seu compositor ou grupo que o acompanha; posteriormente, se for necessário, é escrita. Uma vez que a música era escrita, foi possível haver troca de partituras entre as cortes, divulgando as obras dos compositores além das suas fronteiras: a música passou a ser "universal". Podemos, com muita certeza, comparar a música erudita à literatura: um romance é escrito para ser lido, nunca é (na nossa cultura e civilização) uma manifestação oral que é transcrita num livro. A universalização da música popular se faz através dos meios de comunicação, rádio, discos, TV e, atualmente, pela Internet. Voltando à música cortesã; mesmo havendo a possibilidade de divulgação de sua música através das partituras, o compositor e os intérpretes, quase sempre precisavam de um mecenas que os patrocinasse, desta forma o compositor e os músicos eram vassalos de algum príncipe; hoje a grande maioria dos músicos, sejam compositores ou intérpretes, são patrocinados pelo Estado, por Universidades ou grandes instituições particulares que se dispõe a oferecer esse patrocínio.

E a música "popular"? Antes da invenção do fonógrafo (1880) e a primeira transmissão radiofônica pública (1920) a música "não erudita" tinha um caráter funcional (bailes, casas noturnas, teatro). Foi a difusão em massa que criou um "bem de consumo" que conhecemos como "música popular". A princípio houve resistência dos músicos famosos em gravar suas músicas pois temiam que perderiam sua audiência nas salas de concerto. Com o rádio a coisa foi um pouco diferente porque a radiodifusão poderia ser utilizada como um chamariz aos concertos. As emissoras de rádios passaram a divulgar músicas a partir de 1920 com a invenção do microfone e, como os discos já eram populares em 1920, a indústria fonográfica se estabeleceu com essa fórmula até a década de 1980 com o advento da internet. O que define uma música como 'popular" é ´mesmo critério que separa a literatura da transmissão oral folclórica: esta última é composta e transmitida antes de ser escrita (se for). Desta forma, na maioria das vezes, ela está ligada diretamente ao compositor/intérprete que passa a ser reconhecido não só pela música em si, mas principalmente, pela sua interpretação ("aquela canção do Roberto").




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