Música democrática?
Talvez essa discussão tenha nascido da ideia que, se tratando de uma manifestação cultural, ela deve ser fruída por todos. Essa ideia é recorrente desde a revolução industrial e trazida à pauta por pensadores de esquerda. Ao longo do tempo naturalmente surgiram músicos e compositores de esquerda e não foi por isso que a música erudita se popularizou, se é que houve essa possibilidade. Quando o compositor e seus intérpretes deixam de depender totalmente do mecenato, na segunda metade do século 19 (talvez o último tenha sido Wagner), passam a ter seus proventos vindos de aulas de música e concertos. Na Viena do século 19 a valsa de Strauss era apreciadíssima ... nos salões frequentados pela alta burguesia! A modernidade possibilitou que a pequena burguesia usufruísse de alguns prazeres dos nobres e da alta sociedade onde, conheceram a música erudita, seja nos salões de baile, seja nas salas de concerto. Entretanto, a tradição não considera a existência de um "baile de música clássica". As valsas de Strauss ficam numa região intermediária. Como hoje, ser visto nesse meio era estabelecer um "status cultural" que poderia ser bom para os negócios. Desta forma o fruir da música erudita passou a ter uma finalidade econômica-social, não tinha nada a ver com a música em si. Obviamente nem todos gostavam desse tipo de música, mas o costume se estabeleceu criando, como discutimos anteriormente, uma separação entre o que dizemos ser música erudita e música "popular". Esse conceito de classes está totalmente ligado ao conceito Marxista da "luta de classes" na medida em que se pensa na música erudita como a música da intelectualidade, da elite (no pior sentido desta palavra), a música da classe dominante, a música dos opressores do povo. Em hipótese alguma a música popular, ou esse conceito, surgiu em contraposição à música erudita, música é música. O que acontece é que nem todos gostam da música que ouvem, seja qual for o tipo e, se não gostam, não ouvem. Está na moda falar em "construção social", que é como os "modernos" chamam os efeitos da "Caverna de Platão". A música, entre todas as artes, é a única que nos altera fisicamente ao fruí-la e isso causa impressões emocionais, afetivas, dependendo de todo o zeitgeist no qual estamos inseridos quando nos expomos à experiência musical, seja como intérpretes, seja como plateia. Então podemos dizer, com muita certeza que, além da oportunidade de fruição, existe um aprendizado emocional no qual a música se insere e fixa padrões cognitivos pelos quais reconhecemos formatos associados a experiências pessoais. São esses formatos padrões que nos levam a procurar ou não um certo tipo de música. Se estamos realmente sofrendo uma crise de criatividade, e esse aprendizado emocional acontece com músicas medíocres, isso não "acaba" com a música, mas muda o gostar, o juízo estético ao escolhermos nosso repertório: passamos a escolher músicas medíocres. Existe música boa e música medíocre, mas, tudo é música.
Esta discussão pode nos conduzir a pensar num gradual abandono em se ouvir música erudita; quais são os fatores que afastam o público da música erudita? Eu digo afastam pois tenho notado que muitos procuram ouvir, mas não gostam do que ouvem. As justificativas vão desde uma experiência aborrecida à um dispêndio muito grande de tempo que leva ao desinteresse. Não lembro de alguém ter reclamado explicitamente da complexidade, o que podem dizer é que é uma música “chata" porém, a música não tem nenhum compromisso em atender as demandas do público, exceto para um objetivo puramente comercial, o que se enquadra, atualmente, mais na produção de música "popular'. Já a algum tempo, a peça "clássica" mais ouvida e, julgo ser a mais apreciada, é "As quatro estações" de Vivaldi. Porque não é o "Concerto de Brandeburgo número 4" de Bach ou a "Polonaise Heroica" de Chopin? Não sei. Julgam mais bonita? É mais divulgada? Isso é um mistério. Não existe também uma gravação específica, ou um artista consagrado em termos de música erudita, para o consumidor padrão, o que importa é a música. Poucos são os intérpretes que são levados em consideração na escolha de uma música, entre eles estão Luciano Pavarotti e o maestro Herbert von Karajan, por exemplo, dada à publicidade midiática. A maioria vai (ou ia) assistir Pavarotti cantar seja lá o que for e não ouvir uma música cantada por Pavarotti. Desta forma nos resta supor é que a plateia precisa ser educada, desde que haja interesse da mesma. Já participei, como músico, de vários programas culturais promovidos pelo governo visando a "democratização" da música erudita: consistiam basicamente em "concertos educativos" gratuitos, promovidos nos bairros e vilas mais humildes, onde se supunha (preconceituosamente) que aquele era o público alvo. A procura sempre era pífia e não surtiu efeito algum, a música, para aquele público, continuava sendo "chata" e desinteressante. Sei de alguns programas conduzidos em "comunidades" (não se pode mais usar a palavra "favela") os quais se tentava formar orquestras sinfônicas, com instrumentos emprestados e aulas de música. Sem surpresa alguma, muitos bons instrumentistas saíram dali, mas esses músicos deixaram suas comunidades para ascender socialmente e não para popularizar a música erudita entre aqueles que a maior preocupação é sobreviver, música passa a ser algo secundário. Música sempre será a expressão cultural de uma fatia da sociedade, como entretenimento, a música erudita nasceu na corte, não na vila: não é por acaso que o morador do castelo, é o castelão, o nobre e, o da vila, vilão.

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