Yggdrasil: a copia conforme (o filme) e a prensagem fiel (de discos)
Desde que me lembro, existem audiófilos que ouvem o seu equipamento e não música. Pode ser qualquer tipo de música ou de som, desde que mostrem a sua capacidade de reprodução. Nos primórdios da alta-fidelidade era possível encontrar discos com “sons" para demonstrar o sistema de audio, coisas como barulho de trem passando, jatos decolando, explosões. E não eram poucos esses discos. Com o advento dos sistemas multicanais, a coisa ficou mais bizarra, existem pessoas que acham que todos os filmes são documentários. Lembro de estar numa loja e um cliente interessado num “home teacher” (sic), perguntou se aquelas caixas acústicas eram capazes de reproduzir perfeitamente o “rugido" de um dinossauro. Não lembro o que o vendedor respondeu. Vocês sabem como é o tipo, é o mesmo que quer mostrar como o carro é potente e fica acelerando com o veículo parado. E estão soltos por aí. Quando Vangelis morreu, numa conversa com amigos eu disse que a trilha sonora de sua composição que eu mais gostava era a do filme “Blade Runner”, no que alguém retrucou que gostava mais da trilha do “1492" porque tinha “mais graves” …
Entre aqueles que se dedicam ao hobby pode haver uma certa obsessão com a “perfeita reprodução” daquilo que foi gravado. É fácil de imaginar que tipos, marcas e tecnologias que compõe o sistema de audio competem para essa busca do Graal sonoro mas, o que eu quero discutir aqui é a questão da “reprodução”. Existem muitas abordagens no julgamento dessa reprodução acurada. Uns dizem que o sistema audio deve nos levar ao momento e ao lugar da gravação, outros dizem que o resultado deve ser trazer os músicos para a nossa sala de som, o “somtuário”. Ninguém notou que é uma reprodução que está sendo julgada e não o evento musical que podemos presenciar “ao vivo”. Se compararmos a prensagem de um disco com a cópia de uma gravura, a “melhor" cópia/prensagem é a P.A. (prova do artista) pois cremos que se é uma escolha do artista, deve ser aqueles que representa o que ele queria dizer co sua gravura, porém disco não tem P.A. E mesmo assim, a P.A. é uma escolha do artista, não necessariamente a “melhor" cópia mas, a que ele gostou. No caso dos discos, ao menos temos, numa gravação de um evento “ao vivo”, a possibilidade de estarmos nesse evento e, posteriormente compará-lo à gravação. Somente assim poderemos ter um julgamento mais preciso mesmo que dependente de todos os fatores que, durante o evento e durante a audição da reprodução, influenciaram o julgamento. Entendo que um cópia sempre será uma cópia e, mesmo que o original seja revisitado, a experiência sempre será diferente pois estamos em constante mudança. As nossas lembranças são sempre incompletas e recheadas dos detalhes que não lembramos. Estas coisas lembrei quando estive em Lucignano, onde o filme se passa, buscando o tempo perdido. Não o encontrei.
Viver é sempre uma aventura.

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