Admirável mundo novo
Muita gente não acredita que eu não tenho telefone celular. Num primeiro momento acham que eu não quero dar meu número e, quando percebem que não estou a mentir, me olham como se eu tivesse lepra. “Mas como é que você vive sem celular?”, me perguntam e logo emendam um “eu não sobreviveria sem ele”. “Mas porque não usa?” Com um orgulho maldoso, provoco: “Porque eu posso”. O complemento “e você não” fica implícito, omissão do PC (politicamente correto) e do medo de perder meus dentes. Para muitos é mais um eletrodoméstico que traz praticidade e conforto no que concordo, para outros existe uma certa idolatria envolvida: se o Google e o Chatgpt (que é a modinha) são os oráculos intangíveis, um celular é bem concreto e, a coisa passa a ser um ídolo ao qual é dada a oferenda do tempo e, tempo é vida. Não estou dizendo que TODOS são escravos do dispositivo, mas muitos “morreriam sem ele”, em sua próprias palavras. Quando pergunto, àqueles que eram adultos no período Cretáceo, quando não existia celular, como “faziam”, muito parecem não lembrar e se justificam que eram “outros tempos”. Alguns se sentem ofendidos por eu não ter um celular, talvez se sintam denunciados. Quando estou num local público, todos estão olhando para baixo, para a “telinha”. Eu fico os observando a expressão dos rostos, é muito curioso, muitas vezes é possível adivinhar o que estão vendo. Ninguém mais conversa, as ruidosas reuniões familiares de domingo mergulharam num silêncio perturbador onde ninguém larga o aparelho, chega-se a trocar mensagens entre pessoas na mesma sala. Fico pensando nesse fenômeno e suponho ser uma busca frenética e ensandecida pela necessidade de se socializar sem querer se expor, “conversar" através de mensagens não é bem uma “conversa”, é como “chupar bala sem descascar”. Talvez as pessoas se escondam atrás do celular, se justificando pela praticidade. Talvez existe uma certa sensação de poder, se comunicar com que quiser, quando quiser e se quiser, independência total. Talvez as pessoas estejam cada vez mais complicadas de modo que a interação “ao vivo” esteja se tornando insuportável pois, num mundo onde todos querem ter razão, ninguém tem. Então é melhor se resguardar e manter um “low profile” nas redes sociais para não ser “cancelado" … Decididamente o meu prazo de validade expirou, me sinto como aquela personagem, quase sempre anônima, que está encostada no balcão do saloom, tomando um shot, enquanto o pau come solto. Sinto falta de ver as pessoas jogando conversa fora, torço para que isso não se torne mais uma perversão segundo o PC (que não é o Partido Comunista).

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