Mistérios




Não posso afirmar que isso ainda acontece mas, para as crianças da minha época, o mundo dos adultos era envolvido em muito mistério e, as compotas de pêssego era um dessas coisas incompreensíveis que se praticava. Naqueles dias, quando se plantavam árvores frutíferas no quintal das casas, havia uma abundância de abacates, limão rosa, peras e, produzindo menos, pêssego. Nos bairros, ninguém comprava os primeiros, dava tanto que se distribuía pela vizinhança mas, os pêssegos, por serem mais raros, eram reservados às compotas. A raridade dessa fruta se dava tanto pela variedade aqui plantada como pelo amadorismo dos plantadores: o máximo que se fazia e, se tanto, podava-se as plantas. Desta forma produzia-se muito pouco e o sabor era discutível. Imagino que na tentativa de adoçar um pouco a fruta, faziam compotas. Após cozidos em açúcar, as frutas e a calda eram colocados em vidros especialmente feitos para isso, a tampa era vedada com uma tira circular de borracha e havia um fecho de arame que completava a vedação. Esses vidros tinham uns 25cm de altura mais ou menos e eram zelosamente colocados em prateleiras altas o suficiente para as crianças não alcançarem. Nossas avós e tias, exercitavam seus dotes de crochê fazendo toalhinhas para assentar os vidros e capas que vestiam os mesmos. Essas capas raramente cobriam o vidro totalmente pois era preciso mostrar os pêssegos. Uma vez prontos os vidros de compota ficavam ali, muitas vezes na “sala de visita” (não se falava “sala de estar”) para que fossem admirados pelos visitantes, era uma mostra das habilidades agrícolas e de confecção dos donos da casa. Mas essas compotas NUNCA eram comidas. Vi coleções dessas compotas nas casas das tias, amigas e conhecidas da minha avó, todas arrumadinhas sobre balcões e prateleiras feitas especialmente para os vidros, dezenas (no imaginários elas eram infinitas), se espalhando muitas vezes, por vários cômodos da casa. Ao longo do tempo os pêssegos iam mudando de cor, provavelmente a vedação falhava e as frutas estragavam mas, não eram descartadas. Aquilo parecia aqueles museus onde preservam bichos no álcool. Algumas vezes ousei, pedir para comer a compota no que fui repreendido: “menino, isso não é para comer”. 



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