A sublimação do instinto inconfessável





É notório o procedimento que a mídia faz para vender o seu peixe. Todos sabemos que poucos se sentem atraídos a ler um artigo que não seja desgraça. Me parece que é uma forma de exercer a maldade inerente do humano sem perpetrá-la, é uma sublimação. É claro que isso não é exposto de forma alguma e tudo muito conveniente, afinal o nosso “desejo de matar” está sendo descrito no noticiário. Lembro de que a avózinha de uma amiga de infância não perdia os programas policiais do rádio e se deliciava em comentar os estupros, com um quê de prazer mórbido, como se dissesse: “a vagabunda mereceu, eu que sempre fui santa, estou livre desse tipo de coisa”. É uma maneira de se enaltecer com a desgraça alheia. Qualquer um ou qualquer situação que envolva violência, pode ser usada como uma maneira de “descomprimirmos" nossos conteúdos inconfessáveis ou, como se diz hoje, “exercer o ódio” que nos faz sentir menos culpados pelo que sabemos, e não admitimos, ser errado. Também me parece que essas manifestações, sejam à favor ou contra as barbaridades que acontecem por aí, servem também para “promover" quem opina sobre o assunto, posando como alguém bom, respeitável, em dia com as “boas práticas” sociais de convivência humana. Houve um tempo em que “posar de bom moço” era uma atitude criticada pela “nossa" esquerda, hoje aquela geração É de esquerda … Essas coisas me deixam um tanto desesperançoso pois lutamos tanto para que houvesse um “despertar" mas o pesadelo continua, as pessoas se deixam levar por qualquer propaganda que lhes seja conveniente, cada vez mais vale a lei da selva, onde “o mundo é um grande restaurante” como disse o Woody Allen.  




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