Como "apreciar" música erudita
Adorno rejeitava o termo “apreciação musical” pois julgava ser algo superficial, preferia “compreensão” - era de se esperar de um discípulo de Alban Berg. De maneira geral a música erudita é vista, ou melhor, ouvida com muita desconfiança; muitos a ouvem porque julgam ser algo sofisticado e inteligente e buscam nela uma satisfação narcisista, se assim pode-se dizer, uma espécie de "ostentação intelectual". Isso me parece o mesmo que muitos vegetarianos o são para serem reconhecidos como pessoas politicamente corretas, se é que existe alguma outra motivação neste comportamento (talvez elas se sintam superiores aos primitivos carnívoros). Outro público da música erudita é composto dos que, por não gostarem dela, procuram uma forma mais palatável em "artistas" que as pasteurizam para o gosto da maioria; normalmente são "clássicos" onde se percebem as melodias com arranjos mais simples e, especialmente, em versões mais curtas. Isso pode atrair a atenção deste público, mas a música se torna um pastiche kitsch do que era o original, como as "coisas" que aquele "artista" holandês faz. Desta forma podemos perceber que existem dois "problemas" na fruição da música erudita: sua complexidade e sua duração, na maioria das vezes. Me parece que o "problema" da longa duração é consequência da complexidade: se você não está entendendo o que está ouvindo, está encurtando, ou alongando o seu tempo?
Muito bem, e como isso pode ser resolvido? Música é um processo educativo, aprendemos a ouvir e decodificar a música pelo ouvir. Se for um processo for iniciado na idade adulta o que foi adquirido anteriormente será um ponto de comparação entre esses universos, o da música erudita e o da música popular. O que é novidade sempre será uma adaptação ao que já estamos acostumados. E música está ligada às experiências emocionais que vivemos. Comigo, foi assim: aprendi o que era música através do rádio e do que meus pais ouviam nos discos que tínhamos em casa; aprendi a diferença entre música popular e música erudita, no conservatório, na escola de música. Aprender música é como aprender línguas, a língua materna se aprende em casa e no uso social, a língua estrangeira, na escola ou, para quem tem a oportunidade, em outro país. O que eu mais ouvia, quando criança era uma caixa de música erudita com 12 LPs que compreendia música de Bach a Stravinsky; o que eu mais gostava e ouvia continuamente, era a sinfonia nº 6 do Tchaikovsky. Creio que a minha curiosidade me moveu a prestar atenção à música e tentar decifrá-la pois julguei se essa coleção era uma coletânea representativa de música erudita, era algo que eu devia prestar atenção. Até hoje essa sinfonia ronda o meu subconsciente (tenho 3, ou 4 discos com diferentes interpretações da tal). Alguns anos depois, aos 12 anos, comecei a estudar música seriamente, escolhi a flauta transversal e, uma vez inserido no meio da música erudita, as coisas fluíram com facilidade.
Para iniciarmos essa jornada é preciso ter curiosidade, disposição e paciência. Se você não tem nenhum conhecimento de teoria musical não se preocupe, música é para ouvir e se ter prazer com isso. Podemos começar com "As quatro estações" de Vivaldi e com os "Noturnos" de Chopin. Ouça com atenção, várias vezes (escolha um "Noturno" qualquer, não precisa ser todos) e procure "entender" como a música está estruturada: existem repetições? Existem partes bem definidas? Compare esses dois tipos de música, a de Vivaldi e a de Chopin. Depois que se sentir encharcado dessas músicas, compare-as com qualquer música popular do seu gosto. Quais são as diferenças e similaridades? Procure ouvir outras músicas do Vivaldi e do Chopin. Depois avance ouvindo os "Concerti Grossi" de Haendel e os compare com a música de Vivaldi. Depois ouça algumas sonatas para piano de Beethoven e compare com os Noturnos de Chopin. Esse tipo de "audição crítica" desenvolve o escutar e estabelece uma disciplina do ouvir. Se esse exercício "despertou" o seu interesse por música erudita, procure ouvir outros compositores e boa jornada!

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