Música erudita e as Normas




Li um artigo no qual, indignado, o articulista comentava a irrelevância da "nossa" gramática que se preocupa com o uso formal da língua. A indignação era dirigida ao uso informal de próclises em detrimento das ênclises. Ora, TODOS sabem que existem duas línguas, uma formal para a escrita e outra informal para uso diário e que esta última sofre simplificações regidas pela praticidade e conhecimento gramatical. A escrita tem que ser mais precisa pois é sempre a exposição do nosso pensamento, sem a ajuda da expressão corporal existente num diálogo face a face. É claro que muitas palavras e expressões são utilizadas livremente de acordo com o uso "popular" como gírias ou vício de linguagem; gramática alguma calará a "voz do povo", mesmo porque o "povo" não se atêm à normas ou regras que, nos nossos dias, são consideradas aviltantes pois "não preciso de gramática para ser entendido” (esse pecado tem nome: arrogância). Aqueles que usam a língua de uma maneira mais "gramatical", são taxados de "esnobes" pelos que não têm esse costume, seja por desconhecimento, seja por se sentirem inferiorizados; muitas vezes fui “agredido" por ter mais informações que meu interlocutor. Já me perguntaram, algumas vezes, se eu me achava "melhor que os outros" por falar “diferente" (?) das outras pessoas. Gramáticas existem para usarmos as línguas de maneiras diversas, visando vários objetivos, seja para a literatura, seja para documentos, seja para a precisão ao nos exprimirmos (o que me parece ser o mais óbvio). Note-se que "nós brasileiros" temos a tendência de nos explicarmos ao conversar, creio que isso é devido ao uso inadequado da nossa própria língua (ou porque gostamos de conversar, herança francesa). Esse fenômeno se aplica à música na busca da diferenciação entre o que a academia diz ser "música erudita" e "música popular", não vou entrar no mérito de outras classificações como música folclórica ou sacra. Essa "busca" acontece quando quem está interessado em música se depara com essa classificação. Mais uma vez encontrei muita resistência em relação ao ensino formal na prática instrumental: "eu não preciso aprender a ler uma partitura, eu toco de ouvido". É a mesma postura dos avessos à gramática. Realmente não é necessário saber ler para falar ou para fazer música (assim como não é preciso ser alfabetizado para falar), mas quando se sabe, a percepção muda, seja para a comunicação seja para a prática musical. Assim como nem tudo que se escreve é literatura, nem toda música escrita é música erudita. 






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