O som e o ruído





Foi o André Gide que nos disse que "não há ruído, mas sons". Ou algo semelhante. Num dos capítulos do seriado, de década de 1960, "Perdidos no espaço", ouve-se um estrondo e perguntam ao robô o que era aquilo ao que ele responde: "Um som". Por outro lado, quando André Varèse foi questionado sobre às suas obras de percussão ele disse que aquilo era "ruído organizado". Entre o filósofo, o robô e o músico, fico com o músico (que é um filósofo delirante). Quando Varèse se refere à sua música como "ruído" ele está se referindo, obviamente, a sons alheios às escalas musicais do uso comum. A percepção de um acorde consonante vai ser modificada de acordo com a maneira que as notas, tocadas ao mesmo tempo, nos é apresentada: se são tocadas num volume "normal" e num tempo não muito rápido, esse acorde nos parece agradável, mas, se esse mesmo acorde é executado rapidamente e forte, nos parecerá um ruído. Podemos concluir que a nossa percepção auditiva pode facilmente ser "enganada". Outro fenômeno que o nosso cérebro nos proporciona é a adequação ou complementação de uma sequência de acordes que estamos acostumados a ouvir, se essa sequência "conhecida" não é identificada, julgamos inaceitável ou, para corroborar a tese do Adorno, ininteligível. Da mesma forma que os sons, que identificamos como música, devem ser compreendidos para serem desfrutados, o mesmo processo se aplica aos ruídos. Se falarmos dos instrumentos de percussão fica mais fácil de entendermos os ruídos uma vez que imediatamente fazemos uma associação com ritmo. Mais uma vez, da mesma forma que a música pode ser complexa, assim os ritmos. Concluo que essa compreensão do ruído deve passar pela compreensão do ritmo bem como dos timbres envolvidos. Muitas vezes uma música baseada em ruídos somente é muito mais complexa e difícil de ser compreendida que uma música "melódica". Mas somos daqueles que anseiam por novas experiências, não é mesmo?




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