The Beatles eram mesmo tudo o que dizem ser?




Eram. E muito mais além do que um grupo de pop-rock. Como fui contemporâneo dos Beatles desde o começo do conjunto até o fim, muitos julgam que sei tudo sobre eles. Sou um fã somente. Não sei se isso aconteceu só comigo, mas me parece que não temos uma objetividade e um juízo estético desenvolvido o suficiente para reconhecermos, ou melhor, discernirmos entre o que é bom e o que gostamos. Sei que o meu gostar influencia o meu julgamento, mas vou procurar me ater aos fatos que presenciei. Conheci a música deles em 1964, através de um compacto que tinha "Long Tall Sally", "I call your name". Foi um presente do meu pai e eu ouvia aquilo à exaustão. Fico pensando qual foi o apelo, acho que foi o ritmo e o volume da voz, não era uma música cantada, era gritada, eu nunca tinha ouvido semelhante coisa. Algum tempo depois passei a ouvir no rádio, insistentemente, "I wanna hold your hand" e "She loves you" e a coisa não acabava. Eles faziam uma música melhor que a outra. Passei a gostar de ouvir músicas no rádio a partir dos meus 9 anos e quando saiu o filme "Help!", eu tinha dez anos e fui ao cinema assistir. Eu não sabia do furor que acontecia nos EUA e na Inglaterra, mas conheci a histeria e a ferocidade curitibana assistindo esse filme e, percebi que eles eram diferentes de qualquer outro artista que eu conhecia (que não eram muitos). A mídia noticiava "coisas" sobre eles nas revistas "O Cruzeiro", "Manchete" e "Fatos & Fotos". Sem que se percebesse, todo mundo passou a gostar da música deles. Sem eles não teríamos Led Zeppelin, Pink Floyd, Black Sabbath ou o Abba.  Vou colocar de outra forma, se ele não tivessem existido, estaríamos ouvindo boleros e mambos. Assistam o filme “Yesterday" de 2019, tudo verdade. 

Os anos 1960 foram anos de muitas mudanças sociais e de costumes marcadas, especialmente, pelo aparecimento da pílula anticoncepcional e as contestações da contracultura em relação ao establishment. Coisas que me lembro muito bem: o problema racial americano, a Guerra Fria, o assassinato do Presidente Kennedy, a morte de Walt Disney, o Presidente Castello Branco desfilando em frente ao meu colégio, protestos feministas onde "elas" queimavam sutiãs, o medo da bomba atômica, a Guerra do Vietnã. Tudo isso, de certa maneira, eram ingredientes para a música dos Beatles. E eram muitas músicas de qualidade com melodias bonitas e arranjos criativos. A grande virada foi o "Revolver", especialmente a música "Tomorrow never knows".

E 60 anos depois ainda ouvimos suas músicas com prazer e muitas vezes, para que nunca ouviu, espanto. Mesmo antes da internet esse fenômeno de persistência me causava espécie, antes dos anos 1950,  as músicas não eram tão "duráveis" assim. Havia sim, uma ou outra, mas não tantas. Talvez a música passou a ser mais valorizada pelas pessoas quando tratadas como um documento da época. Não saberia dizer se isso foi algo inconsciente pois não creio que houve, em algum tempo, consciência de uma herança cultural, afinal era só música pop, rock. 

P.S.: “Quem não gosta de Beatles vai para o inferno, mesmo que não acredite nele”.



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