4’33”




Creio que esta composição de John Cage, “para qualquer instrumento ou nenhum”, seja a música conceitual que mais causou celeuma quando foi composta em 1952. A peça, como todos sabem, consiste numa pausa de quatro minutos e trinta a três segundos. Pausa não é silêncio somente mas, um momento de espera. Para a platéia é sempre uma experiência sonora ímpar mas, para o(s) executante(s) é uma árdua prova de profissionalismo. Executei-a duas vezes, de cor. Pode parecer uma bobagem mas, a partitura foi editada pela Henmar Press (hoje C. F. Peters Corporation) e o que aparece é uma pausa. O formato da partitura é totalmente formal e acadêmico e, isso invalida toda e qualquer crítica infantil de dizer que aquilo não é música. Creio que foi Miles Davies quem disse que “o silêncio é o que acontece entre uma nota e outra” mas, no caso, executa-se uma pausa e não “um silêncio”. O resultado, para a platéia pode ser o mesmo mas, para o músico são coisas completamente diferentes e, talvez isso ajude ao público melhor fruir a composição. Se considerarmos que as pausas numa partitura acontecem enquanto os outros instrumentos podem estar tocando, isso torna, automaticamente, a platéia como mais um executante da peça. E sempre, ao executar 4’33”, a platéia reage de alguma forma. Nos primeiros segundos, há uma certa tensão no ar, depois alguém emite um som, seja um cochicho, seja um riso contido. Passados dois ou três minutos, as pessoas relaxam um pouco e se mexem nas poltronas, alguma tossem mas logo começam a ficar impacientes. Não sei de onde o Cage tirou esse tempo, talvez seja um limite em que se pode prender a atenção da platéia, não sei.  Existem gravações da peça (Amadinda Percussion Group HCD 12991, 1989) mas a “mágica" é mais efetiva numa apresentação ao vivo, uma experiência que todos deveriam participar.




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