A antimúsica e a não música




Toda "revolução" tem consequências e incontestavelmente, a revolução industrial foi um ponto de inflexão estrondoso nos últimos séculos e a música, como todas as artes, sofreu "modificações"; não digo que " evoluiu" porque essa palavra é muito mal compreendida. Das muitas motivações para a mudança nas expressões artísticas, a mais infundada é aquela que diz que é preciso uma nova música para um novo tempo. O apelo do novo, do moderno é sempre uma tentativa de nos projetarmos com alguma segurança num futuro incerto e, no caso da música, não é para uma "música melhor", mas sim, uma música "adequada". Todos sabemos que essas mudanças começaram com as complexidades de Liszt, o politonialismo e polirritmia de Richard Strauss e Gustav Mahler (já no século 20), os delírios místicos de Scriabin e a conceitualidade de Charles Ives, MAS o que desequilibrou totalmente a música em termos harmônicos, foi o cromatismo wagneriano quando se ouviu pela primeira vez o "acorde de Tristão". Até então o público e os músicos tinham introjetado em seus DNAs, sequências harmônicas determinadas e estabelecidas como “corretas" por serem consonantes. Essas sequências possibilitam a modulação de uma tonalidade para outra. O "acorde de Tristão" deixa isso em aberto, a música fica à beira de um precipício que não se vê o fundo, é a vertigem musical. As notas que compõe esse acorde oferecem muitas possibilidades "corretas". Com certeza esse foi o primeiro "qual é a música, com um acorde" ... Essa incerteza (lembram do "princípio da incerteza" de Heisenberg?)  possibilitou "multiversos quânticos" na música. As possibilidades foram exploradas com o atonalismo, dodecafonismo, serialismo e as múltiplas inovações ligadas à forma, interpretação e conceitos teóricos que pretendiam orientar os destinos da música. Essas "possibilidades" criaram músicas que nem sempre agradavam o público permitindo um "retorno' que se chamou de "neo-romantismo": 300 anos de "cravo bem temperado" é difícil de se livrar. Depois de muitas marchas e contramarchas chegamos, na década de 1950 ao paroxismo da música com a "proposta" do John Cage com a sua composição 4'33", em 3 "movimentos" com partitura publicada com uma pausa no pentagrama; naquele momento a música transcendeu a sua própria essência tornando-se qualquer fenômeno sonoro, incluindo, não o silêncio, mas a não execução instrumental, a interpretação da pausa. 

A música, no decorrer e a partir do século 20, passou a ser tudo o que se ouve (e/ou não se ouve) dentro de um contexto organizado, deixou de ser música para nossos ouvidos para ser música para os nossos sentidos, gostemos dela ou não.




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