Memórias
Depois de tanto um certo (longo) tempo que vivemos e fazemos e acontecemos, as lembranças acabam truncadas, misturadas com fantasias e outros artefatos psíquicos que servem para preencher os gaps. Somos o que vivemos mas especialmente o que lembramos, consciente ou inconscientemente. Fomos o que pensamos ter sido e somos sem nunca ter sido. Somos somente aqueles momentos em que olhamos dentro dos olhos de quem amamos. Eu estava no jardim de infância, hoje chamam de “pré-escola” (perdeu toda a poesia), tinha três anos de idade. Era nas dependências de um clube, tínhamos uma piscina (proibida) e uma pista de salto de cavalos. Tenho algumas outras lembranças pontuais, como o cheiro da sebe que cercava o clube e brincávamos de esconder: era cedro. O recreio era dividido em duas partes, o lanche e brincar no pátio. A sala onde lanchávamos possuía mesinhas e cadeirinhas onde sentávamos com nossos colegas. Um dia, não sei bem porque, voltei para a “sala de lanche” e encontrei, sozinho, um colega que sentado numa das mesas, chorava baixinho olhando para o seu lanche: sobre a mesa havia uma toalhinha xadres, vermelha e branca e, sobre a toalha, um punhado de cubinhos de queijo prato, era o lanche dele. Imediatamente imaginei que ele odiava queijo como eu odiava mas, como era o lanche dele, era esperado que não voltasse para a casa com o lanche intocado, afinal a mãe dele havia preparado aquilo com muito amor e carinho. Como eu havia me identificado com a angústia do meu colega, sentei na frente dele e, pegando um cubinho, levei à boca dizendo: “não chore, é bom, veja, experimente”. Ela se animou e comemos juntos aquela coisa azeda, todos sabemos que isso não é para o paladar de uma criança de três anos. Foi a primeira vez que me “sacrifiquei" por compaixão.

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