Ponha a chaleira para ferver …





Ouvindo uma interpretação magistral (ouçam e vejam aqui (https://youtu.be/BBZxLqbRrPQ?si=0_UW4JTgNhG0Jy3r) de "Lontano" do Ligeti pela orquestra da WDR, fiquei pensando, mais uma vez, porque a música erudita não é “consumida”. O Adorno nos ensina que música deve ser, antes de mais nada, compreendida e não simplesmente “ouvida" para uma melhor fruição, como se costuma dizer. Creio que a rejeição da música erudita vem cheia de preconceito e um certo sentimento de denúncia da incapacidade de a ouvirmos como se fosse qualquer outra música. É claro que não  o é, essa discussão sobre os diferentes estilos de música é algo que creio nunca terminará. Assim como em todos os campos da “arte" a música sempre será discutida e questionada sob todas as abordagens possíveis, seja em termos técnicos seja pela simples questão de gosto, o que me parece ser o mais comum uma vez que nem todo mundo estudou música. Esse "entendimento" que o Adorno nos propõe está ligado ao conhecimento técnico e ao conhecimento, digamos assim “empírico" da música na medida em que nos expomos à ela ao longo da nossa vida. Creio depender também da nossa abordagem pessoal da “utilidade" da música, isso foi discutido e nos foi apresentado extensivamente pela ideia de “música funcional” do compositor alemão Paul Hindemith, muito embora ele estava focado no ensino da música. Talvez tudo isso seja “sinal dos tempos” como dizem. De maneira geral as pessoas acham que sabem o que é importante para elas, baseado nas suas limitações e necessidades imediatas de serem reconhecidas como indivíduos integrados (no sentido do Eco). Isso me remete ao funcionamento da cultura japonesa onde reina a pasteurização e a uniformidade de comportamento e aparência, coisas “como ousa ser diferente”? A márginália sempre foi considerada “maldita”. Muitas vezes não levada à sério e, outras vezes, queimada na fogueira. Toda e qualquer opressão é derivada do controle exercido por quem detém o poder e não quer perdê-lo. Numa sociedade submetida aos caprichos da  maré econômica, é de se esperar que a música também sofra revezes. Existe também o preconceito fundado nos próprios valores do “consumidor”, já ouvi dizerem que nunca frequentariam uma sala de concertos onde “engravatados esnobes” fingiam apreciar o que estava sendo apresentado. Só posso pensar em inveja. A não aceitação de seus próprios limites é algo destrutivo se não for administrado adequadamente. Já ouvi também dizerem explicitamente “porque existe algo que eu não entendo”? Egocentrismo infantil. Essas coisas me fazem crer que muito em breve, nos devoraremos.


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