Rir na hora certa
Para quem viveu toda uma vida numa mesma cidade como a nossa Curitiba, sabe que muitos costumes mudaram (na verdade foram trazidos para cá) devido a migração interna, primeiramente dos vindos do interior do estado, principalmente do norte (Londrina, Maringá …) e posteriormente de outros lugares do país. Não posso avaliar precisamente como era o humor das pessoas na década de 60 mas não me lembro de sermos sisudos. A nossa fama é de mal educados que não cumprimentam ninguém, o que nunca foi assim, pelo menos por parte dos nativos e entre os nativos. O que me lembro é que éramos ensinados a não falar com “estranhos”, implicando a necessidade de apresentações formais para que o estranho se tornasse “conhecido”. Isso é verdade, aqui existiam parentes, amigos e “conhecidos" que podiam tanto ser colegas de trabalho como gente que encontrávamos eventualmente no clube ou numa festa qualquer e com as quais só havíamos conversado sobre o clima. Esse costume de não falar com “estranhos”, me parece que existia um cuidado excessivo em relação às crianças que, naqueles dias, brincavam soltas e impunes pelas peças e ruas dos bairros (não existia moradores de rua). Mas isso não tem nada a ver com bom ou mal humor. Explico. Ao encontrar um casal de cariocas que pediam informações, por algum motivo que não lembro, eu ri e ela disse para o outro: “Na hora certa eles riem”. Não pude de deixar de rir daquilo também. Ao longo dos anos criou-se uma lenda de que os curitibanos não conversam, nem entre si e muito menos com “estranhos" (os estranhos à terra, os "metecos" como diziam os gregos) e esse “não conversar”, foi se transformando, nos corações e mentes dos estranhos, em mal humor, além da má educação. Talvez essa falta de contato informal venha da invasão que a cidade sempre sofreu, mesmo antes no nosso amado burgomestre propalar as benesses da nossa cidade e atrair um monte de gente estranha com jeito esquisito para cá. Aqueles que vieram para cá acharam uma Curitiba que já não existe a muitas décadas, “nós" deixamos de existir como um identidade cultural a partir dos anos 80, aqueles que nasceram após essa data já eram filhos de migrantes, gente que acham ser curitibanos mas só moram aqui. Um amigo me chama de “o último curitibano vivo”, gosto disso, pertencer aos comedores de pinhão e que, no verão, sentem saudades do tempo nublado, chuvoso e frio.

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