Voar mais um vôo impossível



De vez em quando sonhava que estava a voar. eu estava no chão e, fazendo um esforço com o corpo (não saberia explicar) eu começava a subir. Subia mais alto que as árvores e os fios elétricos, naturalmente. E podia controlar o vôo mas, de certa forma, cansava. Mas era bom, muito bom, não havia vertigem, voar no "céu de Icaro e Galileu”. Não lembro o que o Jung dizia sobre isso, sonhar que se voa; houve um tempo em que me dediquei a Jung, agora o Lacan faz mais sentido: o desejo é mais plausível pois irracional. Deixei a muito de pensar logicamente, isso já se automatizou, não preciso me concentrar, o que me falta, às vezes, é a memória, acho que é assim mesmo. Lembro do Villa-Lobos, lembro da minha infância, me lembro do Monteiro Lobato, não dele, dos livros dele, li toda a obra infantil, várias vezes, hoje foram condenados e reescritos por gente vê maldade em tudo. Lembrei do Rosa e voltei a ler o “Grande Sertão: veredas”, é a minha quarta vez, maravilha das maravilhas, quem não o leu, não viveu. Assim como que não ouviu o Villa e nunca comeu pinhão. Minha infância e adolescência está cheia de Cassiano Ricardo e Augusto de Campos (que visitei uma vez). Foram vôos. Hoje são lembranças que muitas vezes me escapam. Uma imagem, um relance, uma sílaba, um acorde menor, uma voz ao telefone, uma silhueta contra o sol, um vestido cor de rubi, um beijo que também esqueci o gosto. Mas não esqueci de voar.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog